A ALMA DORME NA PEDRA, SONHA...


A ALMA DORME NA PEDRA, SONHA...


 Francisco Aranda Gabilan
  
         Eu já tinha dúvidas e me chamava a atenção o fato, mas o culto amigo e diligente companheiro de Doutrina (ora na presidência da FEESP), escritor de primeira, Durval Ciamponi levantou a lebre, por duas vezes, no mínimo e que eu saiba: “...a citação geralmente atribuída a ele (Denis) de que ‘a alma dorme na pedra, sonha no vegetal, agita-se no animal e acorda no homem’. Não conseguimos localizar onde Léon Denis escreveu essa frase, para uma análise mais profunda.” (cap. 8, pg. 74, do seu livro “A Evolução do Princípio Inteligente”); e outra vez, lançando de novo a dúvida de que “em lugar nenhum de sua obra Allan Kardec afirmou que o princípio inteligente estagia no mineral, nem o próprio Léon Denis, conquanto se diga que é dele a frase de que a alma dorme na pedra, sonha no vegetal, agita-se no animal e acorda no homem” (pg. 7 do Jornal Espírita de Agosto de 1999, seu artigo sob o título “O Espírito tem fim?”).

         Aqui não vai me interessar a questão de fundo (quando o princípio inteligente se individualizou), que continua amplamente debatida no seio doutrinário pelos mais doutos, cada um cheio de razões as mais respeitáveis. O que me move, aqui e agora, é a minha dúvida, também esposada pelo Durval: a frase é ou não do Denis? De quem seria, se não for dele.

         Em cima disso, é que vou especular... pesquisando.

         Lembrei-me de ter visto a citação em Herculano Pires: fui direto no excelente livro “Mediunidade (Vida e Comunicação)” e lá, no cap. XI, pg. 93 da 4ª edição, encontrei o autor ensinando que “A Ontogênese Espírita, ou seja, a teoria doutrinária da criação dos Seres (do grego: onto é Ser; logia é estudo, ciência) revela o processo evolutivo a partir do reino mineral até o reino hominal. Essa teoria da evolução é mais audaciosa que a de Darwin. Léon Denis a definiu numa seqüência poética e naturalista: A alma dorme na pedra, sonha no vegetal, agita-se no animal e acorda no homem”. Mas, lastimavelmente não cita a fonte, nem indica onde Denis teria dado a lume a definição, apesar dos qualificativos atribuídos à seqüência: poética e naturalista.

         O mesmo Herculano volta a tratar do assunto no livro “Agonia das Religiões”, cap. XIII, pg. 109 da 2ª edição, aduzindo à seqüência natural de que já falara (“o poder estruturador no reino mineral, a sensibilidade no vegetal, motilidade no animal, o pensamento produtivo no homem”), mas sequer cita Léon Denis.

         Lembrando-me dos bancos das escolas de Aprendizes do Evangelho, lá vão mais de vinte anos, socorri-me da memória e fui até o Com. Edgard Armond, onde tinha certeza que ele citava a frase também e, por certo, daria a fonte exata. Lá estava a citação no volume VI da série antiga “Iniciação Espírita”, aula 68, pg. 5: “O Espírito, como já foi inspiradamente dito, ‘dorme no mineral, sonha na planta, desperta no animal e vive no homem’.” Mas...mas, quem inspiradamente o disse? Onde o fez? Nada...frustração!

         Escarafuncha aqui e ali, deparei com a última frase de Antônio F. Rodrigues, no seu livro “Como Vivem os Espíritos”, esbarrando no assunto, assim: “E esta revelação é aceita por todos os espíritas de escol, inclusive o mestre Léon Denis, quando em magistral síntese exclamou: ‘A alma dorme na pedra, sonha no vegetal, agita-se no animal e acorda no homem’ ”. Mas... mas, e a fonte? Não cita, mas parece que o autor tem absoluta certeza da citação , pois que chama de magistral o poder de síntese do pioneiro loreno do Espiritismo; mas, parece ter certeza mesmo é que os espíritas (incluindo os de escol) literalmente aceitam a revelação sem perquirições.

         Restava ir para o próprio Denis. Como eu nada conseguisse de concreto, falei com todo mundo  --  colegas, alunos, dirigentes, expositores, etc.  --  mas foi a também diligente expositora Joana .......(instada pelo Samuel Angarita), quem deu o caminho mais fácil da pesquisa: Léon Denis fala do tema no livro “O Problema do Ser, do Destino e da Dor”, mas de maneira formal diferente das citadas pelos autores: “...talvez que espírito e matéria não sejam mais do que simples palavras, exprimindo de maneira imperfeita as duas formas da vida eterna, a qual dormita na matéria bruta, acorda na matéria orgânica, adquire atividade, se expande e se eleva no espírito.” (Primeira Parte, item III, pg. 63 da 21ª edição da FEB). E repete o tema (Primeira Parte, item IX, pg. 123), porém suprimindo o estágio no reino mineral, fixando o início da vida no reino orgânico (e Durval se aproveita solertemente dessa contradição!), assim se expressando: “Na planta, a inteligência dormita; no animal, sonha; só no homem acorda, conhece-se, possui-se e torna-se consciente”.

         É, parece mesmo que Léon Denis tratou do assunto, mas não exatamente como vem sendo iteradamente citado, não ao menos “ipsis verbis”.

         Mas, se em algum lugar ele proferiu tal expressão (poeticamente, como apropriadamente o disse Herculano, pois que o mestre loreno foi mais de uma vez cognominado de o poeta do Espiritismo), com certeza o fez nas suas centenas e centenas de discursos proferidos ao longo de sua incansável jornada, em encontros, congressos e conferências pelo mundo afora, inclusive representando a Federação Espírita do Brasil certa feita (Congresso Espírita Universal de Bruxelas, maio de 1910). Da minha parte, consultei a compilação feita por Sylvio Brito Soares, que enfeixou no livro “Páginas de Léon Denis”, onde, mais de uma vez o mestre resvalou o assunto, mas não em frase incisiva como a pesquisada.

         Mas, como poeta das letras e das frases que reconhecidamente era, por certo havia sido inspirado por outros poetas precedentes.

         Sabem porque essa minha afirmação? Tem fundamento: de tanto pesquisar, fui bater de novo no Comandante Armond, nas anotações da sua antiga aula 77ª do mesmo citado Curso (VII volume, , pg. 1), quando ele me deu o rumo de quem efetivamente foi o criador da imagem (e da idéia também) da vida no mineral: “Nos cristais, segundo o conceito do poeta oriental Sufi Rumi, o espírito dorme; mais tarde ele sonhará no vegetal, se movimentará no animal, reencontrando-se a si mesmo no homem”.

         Eureka! Mas, quem foi Rumi?

No Brasil jamais ouvira falar dele. Então fui para o exterior, via Internet, sem falar da ajuda das pesquisas inestimáveis de alunas do curso de expositores do Semeador, de Alphaville. Surpresa: Maulâna Djalal ad-Din Rûmi, nascido no século 13 (setembro de 1207), é considerado um dos maiores poetas de todos os tempos, comparado pelos críticos a Dante e Shakespeare; filósofo e místico do Islã, deixou uma obra monumental (3.229 odes e 34.662 dísticos; um conjunto de 26 mil versos de poemas espirituais), estudada e até seguida por Hegel e Goethe, dentre outros.

         Quanto ao estilo e escola, era sufista, ou seja, representa a parte interior e mística do Islã, que acredita que o espírito humano é uma emanação do divino e que toda a aventura do homem é um só esforço ruidoso desse espírito para se reintegrar a Deus. Esse movimento  --  sufismo  --  data do século VIII e se desenvolveu sobretudo na Pérsia; “o sufi mantém a idéia islâmica da unidade divina, mas percebe que Deus engloba tudo, penetra tudo, e descobre Deus no fundo de si próprio. Alguns sufis chegam a declarar: “Eu sou Deus”, Anota Félicien Challaye, em seu livro “As Grandes Religiões” (cap. XIV, pg. 248), fazendo pouco adiante menção a Rûmi e sua importância.

         Fomos ler os poucos poemas existentes em tradução (em inglês são dezenas de milhares) e, além de nos deleitarmos com a singeleza dos versos, da espiritualização das mensagens, nos deparamos com o que buscávamos: no livro “Poemas Místicos-Divan de Shams de Tabriz” (tradução e seleção de José Jorge de Carvalho), lá está, na página 66, o pema “A Evolução da Forma”. E parte dos esplendorosos (e espíritas) versos, assim:

“Desde que chegaste ao mundo do ser,
uma escada foi posta diante de ti, para que escapasses.
Primeiro foste mineral;
Depois, te tornaste planta,
E mais tarde, animal.
Como pode ser isto segredo para ti?

Finalmente, foste feito homem,
Com conhecimento, razão e fé.
Contempla teu corpo – um punhado de pó –
Vê quão perfeito se tornou!

Quando tiveres cumprido tua jornada,
Decerto hás de regressar como anjo;
Depois disso, terás terminado de vez com a terra,
E tua estação há de ser o céu.”

         E, mais adiante (pg. 117), , embevecidos encontramos parte de outro poema, que citamos pela beleza e por homenagem à ontogênese espiritual do Herculano:

“Por algum tempo foste os elementos,
Por outro tempo foste animal,
Por um tempo serás alma,
É agora a tua chance
- Torna-te alma suprema, sê a alma suprema!”

         Escrevi para o tradutor perguntando se havia nos pemas de Rûmi, algo mais decisivo (em termos da frase atribuída a Denis), ele, gentilmente, respondeu por e-mail: com certeza a mesma idéia do poeta foi apresentada (por Denis) em paráfrase ao poema transcrito acima, Evolução da Forma. Ou ainda: problemas de tradução.

         E Rûmi fez escola aqui entre nós: o Espiritismo, via a mediunidade de Francisco Cândido Xavier e de Waldo Vieira, deu-nos a lume o poema de Adelino da Fontoura Chaves (Antologia dos Imortais, 1ª edição-FEB, 1963, pg. 33), denominado singularmente de “Jornada”:

“Fui átomo, vibrando entre as forças do Espaço,
Devorando amplidões, em longa e ansiosa espera...
Partícula, pousei... Encarcerado, eu era
Infusório do mar em montões de sargaço.

Por séculos fui planta em movimento escasso,
Sofri no inverno rude e amei na primavera;
Depois fui animal, e no instinto da fera
Achei a inteligência e avancei passo a passo...

Guardei por muito tempo a expressão dos gorilas,
Pondo mais fé nas mãos e mais luz nas pupilas,
A lutar e chorar para, então, compreendê-las!...

Agora, homem que sou, pelo Foro Divino,
Vivo de corpo em corpo a forjar destino
Que me leve a transpor o clarão das estrelas!...

         Valeu? Valeu muito para mim, porque nessa brincadeira de buscar uma frase, acabei entrando em contato com tanta gente estudiosa e espiritualizada, que faço questão de passar para os meus companheiros de jornada.

         Mas  -- que o estimado Durval Ciamponi compreenda bem  --  não digo que valeu pela discussão da individualização do princípio inteligente, não, porque não tenho luzes para entrar nessa seara, mas, respeitando as teses alentadas dos doutos, fico aqui do meu canto observando e absorvendo o que me for possível e estiver ao meu alcance. Enquanto isso, vou lendo Rûmi e vendo as teses do próprio Espiritismo transparecer em seus versos, criados há cerca de 800 anos. E vou lendo Denis... e vou lendo Herculano... e vou lendo Durval... e vou lendo Armond... e vou lendo Kardec, é claro...


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